Tem as consultas em dia, a medicação organizada e os exames dentro dos valores esperados. O frigorífico está abastecido, a tensão arterial controlada e não falta quem pergunte se tomou os comprimidos. Mas passa grande parte do dia sem conversar com ninguém. Já não decide quase nada, deixou de sair e não sabe bem para que serve a manhã seguinte.
Do ponto de vista clínico, está acompanhado. Do ponto de vista da vida, talvez esteja cada vez mais sozinho.
Este não é um caso raro. Diz muito sobre a forma como ainda pensamos a longevidade: como se ela fosse, sobretudo, uma questão de saúde. Como se bastasse que o corpo funcionasse para que a vida também funcionasse.
A saúde é indispensável. Sem ela, a autonomia estreita-se, o mundo fica mais pequeno e muitas escolhas deixam de estar disponíveis. A medicina e os cuidados de saúde deram-nos anos que antes não teríamos. Mas uma coisa é ser indispensável. Outra é ser suficiente.
E a saúde, sozinha, não chega.
Reduzir a longevidade à saúde é olhar para a pessoa como organismo — e não como vida.
Perguntamos se comeu, se tomou a medicação, se dormiu bem. Perguntamos menos se ainda escolhe, se tem com quem conversar, se alguma coisa lhe desperta curiosidade ou se continua a sentir que pertence ao mundo. Aprendemos a vigiar o que é mensurável e urgente. Continuamos menos atentos ao que vai empobrecendo a vida em silêncio.
Não é apenas uma falha individual. Também as famílias e as instituições tendem a organizar o apoio em torno do que se pode contar, cumprir e registar.
Uma vida sem voz, sem estímulo e sem vínculos pode permanecer invisível, mesmo quando o acompanhamento clínico está assegurado.
Ter acompanhamento médico não significa, necessariamente, estar humanamente bem.
A vida longa acontece ao mesmo tempo num corpo que muda, numa mente que interpreta essas mudanças, nas relações que permanecem ou se desfazem — e no universo de memórias, hábitos e pertenças através do qual cada pessoa se reconhece. Estas dimensões não existem em compartimentos separados. Tocam-se, reforçam-se e fragilizam-se umas às outras.
Um problema físico pode afastar alguém da comunidade. A solidão pode diminuir a vontade de cuidar do corpo. A perda de um papel social pode abalar a identidade. E quando desaparecem os lugares, as conversas e as rotinas que davam continuidade à vida, pode manter-se a sobrevivência sem se manter o mundo da pessoa.
Talvez seja este o erro mais comum: acreditarmos que basta acompanhar o corpo, quando o verdadeiro desafio é não deixar a vida encolher à sua volta.
Mas se a saúde não chega, talvez uma das primeiras dimensões esquecidas seja precisamente a cultura: aquilo que nos dá identidade, memória, pertença e mundo.
Rui Francisco · Educador Social
Publicado no Diário de Leiria
Reprodução da versão impressa do artigo.
